História

Nossa História: 80 Anos de Lutas e Vitórias

O relato a seguir é um breve resumo das pesquisas realizadas por Aristides Cabral de Souza, o mais antigo colaborador em atuação na ACI de Sete Lagoas. Durante meses, ele releu atas e documentos e entrevistou os ex-presidentes da ACI ainda vivos, com o objetivo de resgatar a história da entidade e, ao mesmo tempo, valorizar o trabalho da classe empresarial de Sete Lagoas.


Quem conhece a ACI apenas por sua bela sede social não pode imaginar o esforço de gerações de empresários que lutaram para construir essa realidade. Um passado que se confunde com todas as fases do crescimento do Município, evidenciando-se, em todas elas, a efetiva participação da entidade na obtenção da mais variada gama de benefícios coletivos conquistados, de inigualável importância para o seu crescimento.

O maior patrimônio da ACI, entretanto, se traduz no respeito de seus associados, do poder público e das entidades civis da cidade. Um reconhecimento conquistado pelo poder de congregar, dialogar e articular para a transformação social, através dos tempos. Atuando como agregadora de forças, a ACI tem cumprido seu dever institucional de estar presente e atuante sempre que interesses maiores da cidade e de seu corpo de associados estiverem em jogo.

Desde a sua fundação, e legitimada pelas classes que representa, a ACI sempre se colocou na vanguarda das correntes dispostas à luta pelos interesses e causas maiores da cidade, trabalhando com desprendimento, mas consciente da importância do trabalho conjunto e coletivo. As vezes protagonista, as vezes coadjuvante, sempre atuante.


Cine Meridiano, década de 1930. Local da fundação da ACI. Os empresários acreditaram no progresso por meio da união.

Organizar para crescer

Sete Lagoas era, em 1936, uma cidade que sentia a necessidade de se preparar, ordenadamente, para o futuro. As lideranças empreendedoras da cidade, à época, intuíram que a criação de uma agremiação eclética, de filiação voluntária e independente, desvinculada do governo, seria o ideal o caminho mais rápido para que ideias e projetos pudessem ser organizados e transformados em ações que a cidade exigia.

Com esse consenso, um grupo de 48 pioneiros se reuniu na sede do antigo Automóvel Clube, à Rua Lassance Cunha, no dia 8 de janeiro de 1936, sob o comando de Francisco Teixeira da Costa, que convidou os senhores Joaquim Dias Drummond e Alonso Marques Ferreira para atuarem como secretários da reunião, organizada para “a fundação de uma entidade local, constituída pelos comerciantes, industriais e lavradores do Município, para a defesa dos altos e sagrados interesses das classes produtoras.”

A criação da associação foi acatada, e nomeada uma comissão para a redação de um estatuto, que seria então apreciado em nova reunião, agendada para o dia 19 de janeiro, no Cine Meridiano. Naquela data, o estatuto foi lido e aprovado sem ressalvas, tendo sido a ata assinada por todos os presentes, que entraram assim para a história:

Francisco Teixeira da Costa, Alonso Marques Ferreira, João Damasceno França, Bernardo Alves Costa, Braz Filizzola, Bernardino de Mello Figueiredo – Pela Companhia Uzina Paraiso. Bernardino Vaz de Melo, Wanderley Azeredo, Jaime de Melo Figueiredo, Nadrah Munaier, Antônio Martins da Silva, Antônio França Duarte, Mario Alves Pontes, Elian Monteiro, José Abreu Paiva, Antônio Bernardino, Achiles Gonçalves Coelho, Jorval Cotta, Mariano R. Gonçalves, Antônio Andrade, José Filizzola, João Martins Abreu, Alfredo Pires, Euro de Andrade, Aurélio Marques dos Santos, Nassin Abrahão Cecílio, Francisco Abreu Paiva, Jorge Salomão, José Rodrigues Dieguez (por Felipe Nascif Chamon), Ralili Nascif Chamon, Júlio José de Melo, Sandoval Campolina de Sá, Jorge Francisco Simão, José Hilário dos Reis, Leonildo Barros Filho, José da Rocha & Cia, José Alves França, Christiano Teixeira de Melo, Francisco L’Abbate (pp Lunardi & Filho), Salomão Tanure, Isaias Perez, Aníbal Lanza Júnior, José Ferreira Coelho, Antônio Costa, José Pereira da Rocha, José Duarte de Paiva, Avellar Pereira de Alencar.


Os ciclos econômicos da cidade

No ano de 1936, quando nasceu a Associação Comercial e Industrial de Sete Lagoas, a cidade tinha pouco mais de 10 mil habitantes, com predominância de moradores na zona rural. Já naquele tempo, a despeito das circunstâncias político-econômicas brasileiras, a cidade dava sinais de ser vocacionada ao progresso, justificando seu lema Ad Altiora Nata (“Nascida para o Alto”, em latim).

O comércio era florescente e bem-servido por armazéns de secos e molhados, que vendiam por atacado e varejo, e por bem-sortidas lojas de tecidos, confecções, perfumarias, sapatarias, farmácias, bares, restaurantes e casas de entretenimento. Havia até uma moderna sala de cinema. Sete Lagoas já atraía consumidores de cidades próximas, sendo considerada o entreposto natural da região.

A Estrada de Ferro Central do Brasil era o meio transporte regular quase que exclusivo para passageiros e cargas. Sete Lagoas estava ligada ao tronco-central da ferrovia brasileira, passagem obrigatória dos trens que, partindo de Belo Horizonte, do Rio de Janeiro e de São Paulo, rumavam ao nordeste do País. Derivações e ramais permitiam conexões com Corinto, Pirapora, Diamantina e Montes Claros, entre outras destinações.

Por conta dessa posição centralizada, a ferrovia mantinha em Sete Lagoas um complexo de oficinas de reparação preventiva e corretiva de vagões e locomotivas. As “Oficinas da Central”, como eram conhecidas, empregavam cerca de 1.500 pessoas. Não é por acaso que boa parte da história de Sete Lagoas e, por consequência, da ACI, esteja intimamente ligada à atividade ferroviária. Os funcionários da ferrovia movimentavam o comércio local. Depois, constituíram famílias que se multiplicaram através do tempo e seus descendentes, ainda hoje, continuam contribuindo para o desenvolvimento econômico e social da cidade.

Estação ferroviária de Sete Lagoas, nos anos 1930. Durante décadas, a ferrovia foi a principal fonte econômica da cidade.


A agropecuária substituiu a ferrovia como motor da economia local nos anos 60.

Entretanto, nos anos 60, o transporte ferroviário no Brasil viu-se relegado em favor do transporte rodoviário, que se expandia junto com a recém-criada indústria automobilística no país. Em resposta à decadência da ferrovia, a atividade econômica da cidade voltou-se então para a agropecuária, que se expandiu de maneira exuberante. Sete Lagoas transformou-se, rapidamente, em importante polo leiteiro, suprindo indústrias de laticínios, locais e regionais.

O gradual crescimento da cidade acabou por atrair outros empreendimentos, especialmente industriais: tornearia mecânica, caldeiraria, reparação automotiva e de máquinas e implementos agrícolas. Foi o prelúdio para mais um arranque econômico, desta vez com a chegada das empresas de siderurgia, nos anos 70. As características naturais e demográficas de Sete Lagoas, a proximidade com Belo Horizonte, o fácil acesso aos principais centros de mineração de Minas Gerais eram uma vantagem importante. E a cidade podia oferecer mão de obra a um custo atrativo.


Os “guseiros”, surgidos nessa época, constituíram durante décadas a base da atividade econômica regional. Embora ainda ostente a maior produção independente de ferro-gusa no Estado de Minas Gerais, Sete Lagoas viu seu perfil econômico mudar ainda mais uma vez, com a chegada da Iveco e seus caminhões, em 2000. Foi a senha para a atração de outras grandes empresas. Nos anos seguintes, vieram a Ambev, Elma Chips, Brennad Cimentos e outras.

A agropecuária substituiu a ferrovia como motor da economia local nos anos 60.


Inaugurada em 2000, a Iveco expôs as vantagens competitivas para outras indústrias, que chegaram em grande número à cidade..

Esse novo perfil industrial aumentou a exigência por engenheiros, técnicos e operários qualificados para atuar na linha de produção. Muitos vieram de fora da cidade, até que as instituições de ensino superior locais pudessem se adequar à essa demanda. Houve, também, a elevação da média salarial na cidade. “Com a Iveco tivemos mais uma revolução na cidade: os serviços melhoraram e o setor de comércio se expandiu”, afirma Flávio Fonseca, presidente da Associação Comercial e Industrial de Sete Lagoas.

Os números comprovam a aceleração econômica de Sete Lagoas: entre 2000 e 2010, o PIB do município de 230.000 habitantes cresceu mais de 500%, o dobro da média nacional.

Neste ano de 2017, vivemos momentos de apreensão e expectativa, tendo em vista a persistente crise econômica dos últimos anos. Promover a discussão para o encontro de alternativas e caminhos para o crescimento da cidade é uma das tarefas da ACI.